01 março 2010

A IGREJA ESTÁ SENDO O QUE NÃO DEVERIA SER

"Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível. Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus; para os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo assim vivesse, para ganhar os que vivem debaixo da lei, embora não esteja eu debaixo da lei. Aos sem lei, como se eu mesmo o fosse, não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei.
Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns.
Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele." (1 Co. 9: 19-23)

O título deste artigo pode parecer um pouco ofensivo ou sem uma certa lógica para muitos. Porém a realidade dos fatos comprova que quanto mais a igreja avança em números e atitudes diante dos ímpios e ainda pensa que está agradando a Deus, ela mergulha cada vez mais no seu egocentrismo desenfreado e se afasta aos poucos do Senhor.
Quando dissemos "igreja" estamos nos referindo ao comportamento de muitos evangélicos espalhados no Brasil e no mundo. E queremos enfatizar antes de tudo que existem igrejas que estão verdadeiramente comprometidas com a sã doutrina e os ensinos de Cristo, pregando e vivendo o Evangelho.

Mas afinal, que comportamento seria este? Bem, podemos começar a entender isto baseados na passagem bíblica acima: a cooperação com o Evangelho. Um grande engano que existe na mente de muitos cristãos é que apenas 'pregar' ou 'falar de Jesus' para alguém ou algum grupo é mais do que suficiente no tocante à missão de evangelizar. Outro engano grave é a questão do 'bom testemunho', que se limita apenas a não cometer certos erros de conhecimento público como comprar e não pagar, falar palavrão, não comentar da vida alheia, não participar de certas coisas do mundo como piadas, futebol no final de semana com os colegas de trabalho, etc.
Muitos são aqueles que falam de Jesus, são pessoas honestas e íntegras, mas constroem um 'casulo' em torno de si mesmas e fogem de dois fatores importantes na área do Evangelismo: a convivência e os relacionamentos.

Muitos querem anunciar a Jesus da maneira que consideram correta. E sem entrar na questão das estratégias evangelísticas, o que queremos ressaltar aqui envolve as individualidades da igreja. Um dos maiores papéis do povo de Deus na sociedade é o de atrair as pessoas até Cristo, o que infelizmente acontece o contrário.
Por quê? Porque muitos se voltam para si mesmos e não para os outros. Muitos não querem se esforçar para alcançar alguns para Cristo, vivem em função de demonstrar uma falsa santidade a Deus por não 'se misturarem' com ninguém e apenas não dão motivos para escândalo e quando existe a oportunidade falam de Jesus. Será que somos incapazes de imaginar como é os pensamentos daqueles que nos observam?
Este é o perfil deles:
vivem afastados dos outros;
quase não conversam com ninguém;
só sabem falar das coisas de Deus;
gostam de rotular as pessoas;
não se confraternizam (exceto com os da mesma fé);
não sorriem, não dão uma única risada;
ás vezes se colocam como juízes, etc.

Com certeza muitos ímpios dizem consigo mesmos: 'se este comportamento significa ser um crente, eu não quero experimentar'. Isto por que estes consideram tais comportamentos anormais, fora do comum ou dignos de uma sociedade secreta.
Uma das grandes virtudes do Senhor Jesus quando se fez carne e viveu entre os humanos, foi a Sua capacidade de se misturar com as pessoas, de conviver com elas, construir relacionamentos. E lemos no texto acima que o missionário e apóstolo Paulo procedia da mesma forma.
O termo 'se misturar' não significa 'praticar as mesmas obras' e sim 'construir pontes' (elos de ligação).
"Então, lhe ofereceu Levi um grande banquete em sua casa; e numerosos publicanos e outros estavam com eles à mesa. Os fariseus e seus escribas murmuravam contra os discípulos de Jesus, perguntando: Por que comeis e bebeis com os publicanos e pecadores? Respondeu-lhes Jesus: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento." (Lc. 5:29-32).
Jesus nunca pecou e jamais concordou com o pecado, mas Ele não se afastou dos pecadores pelos quais veio salvar.
O que vemos hoje são crentes que só se reúnem com outros crentes; crentes que só abençoam outros crentes; crentes que só fazem amizades com crentes; crentes que só respeitam crentes; crentes que só ajudam outros crentes; crentes que só convidam outros crentes (até mesmo para ir em suas igrejas); crentes que só se aconselham com crentes; crentes que só se relacionam com crentes; crentes que só ceiam juntos com outros crentes; crentes que se alegram apenas com outros crentes; crentes que buscam os interesses somente de outros crentes; crentes que só se preocupam com outros crentes; crentes que só visitam outros crentes; crentes que só andam do mesmo lado de outros crentes; crentes que só recebem em casa outros crentes; crentes que só entram na casa de outros crentes; crentes que dão preferência apenas a outros crentes; crentes que só elogiam crentes, etc.
Como podemos cumprir este mandamento de Cristo: "...e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra." (At. 1:8), se o testemunho que queremos demonstrar muitos ímpios também demonstram?
Muitos são aqueles que não têm nenhum compromisso real com Deus mas são honestos, íntegros e sinceros em suas atitudes. Muitos que praticam outras religiões que consideramos pagãs e diabólicas possuem o mesmo testemunho que temos e ainda se encontram em vantagem no tocante a algumas crenças como o Espiritismo Kardecista, quando estes praticam o bem ajudando os necessitados de forma habitual.

Há milhares de crentes que não sabem ter uma vida normal, digna de um cidadão comum que convive com outras pessoas, independente de suas crenças ou modo de vida. Muitos nem sequer se aproximam daqueles que consideram 'pecadores insanos', com medo de se contaminarem. Muitos ficam horas e horas orando no monte, mas não visitam um pecador nem mesmo por meia hora e pensam que estão agradando a Deus: "Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero e não holocaustos; pois não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento." (Mt. 9:13). Se sacrificam para santificarem a si mesmos e demonstrarem aos outros irmãos que estão 'cheios do poder', porém não fazem um único esforço para compreender alguém que precisa de ajuda, que está escravizado pelo pecado.
Na igreja gostam de aparecer; no trabalho são crentes disfarçados de funcionários. Quase tudo atribuem ao diabo ou a algum tipo de maldição, sempre usando as palavras erradas nos momentos incorretos. Não conseguem se entrosar com as pessoas, não possuem assunto para desenvolver um diálogo, não se importam com o conhecimento secular para usarem de 'gancho' na evangelização: "O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho.
O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador!
Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado." (Mt. 18:11-14).

Muitos por causa deste comportamento isolável e egoísta se consideram acima da média, acima dos outros. Gostam de afirmar que jamais podem cair em tentação ou praticar alguma das obras daqueles dos quais se isolam; criam vários jargões evangélicos que costumam usar até quando surge alguma conversa com um ímpio (e ele fica sem entender nada); dão vários motivos reais para sermos chamados de 'loucos, esquisitos, anormais,' etc.
São tantas coisas que envolvem estes crentes que os mesmos acabam afastando as pessoas ao invés de atraí-las até Cristo. Outro comportamento é o de insistir em falar de Jesus para alguém que não quer ouvir. Muitos teimam em trazer alguém para Cristo na marra, do jeito delas e chegam até mesmo a ofender os outros: 'você vai para o inferno, tu és servo do capeta, tu és um amaldiçoado!'.
E quando estão atravessando alguma adversidade, gostam de mostrar que são inabaláveis, vivem uma falsa alegria, isto porque se envergonham de mostrar alguma derrota, afinal 'derrota não é coisa de cristão'.

É realmente triste saber que muitos e muitos irmãos estão vivendo a vida cristã desta maneira, e o pior é que pensam que estão agradando a Deus assim.
E o comportamento não se limita somente aos ímpios, aos irmãos crentes também. Basta que um deles se envolva com algum tipo de pecado público ou por qualquer outro motivo se afaste da igreja que eles são os primeiros a colocarem esta pessoa no inferno! Não visitam, gostam de dizer 'a porta da casa é a serventia da rua', 'bem feito', 'ele não é nenhum inocente, pois ele conhece a Bíblia', 'demos muitas oportunidades, agora está nas mãos de Deus' etc. Se esquecem do ser humano, da pessoa que é falha, que precisa de uma ajuda perdoadora e consoladora: "É ele que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus." (2 Co.1:4).

O fato é que muitos vivem aqui na terra pensando que são anjos. Não se compadecem de ninguém, não conseguem sentir a dor dos humilhados, dos pobres, dos encarcerados, dos viciados, etc. Falam mais do diabo quando têm a oportunidade de falar mais de Jesus, o Todo Poderoso que morreu por nós e hoje vive pelos séculos dos séculos!
Se ofendem com a maior facilidade do mundo, não compreendem o jeito de ser dos outros, a personalidade dos outros, não são flexíveis nos relacionamentos, na convivência.
Agora, uma coisa não podemos deixar de ressaltar aqui: o que molda o caráter destes crentes está exposto nas doutrinas de usos e costumes das igrejas, nas mensagens pregadas nos púlpitos, nos louvores triunfalistas e nos ensinos distorcidos sobre comportamento cristão. Fala-se muito sobre relacionamento com Deus, afrontas ao diabo, luta contra o pecado, prosperidade, vida vitoriosa e se esquecem do próximo, do pecador, do necessitado.
"Já em carta vos escrevi que não vos associásseis com os impuros; refiro-me, com isto, não propriamente aos impuros deste mundo, ou aos avarentos, ou roubadores, ou idólatras; pois, neste caso, teríeis de sair do mundo. Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais. Pois com que direito haveria eu de julgar os de fora? Não julgais vós os de dentro?" (1Co. 5:9-12).



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